As lendas de São Valentim, o padroeiro dos namorados

Desde sempre a Itália é considerada “um país de santos, poetas e navegadores”, mas com certeza quem definiu assim o nosso país se esqueceu de adicionar: “Itália, o país dos namorados.”

Peynet_namoradosDos namorados, sim, porque além da celebérrima sacada de Romeu e Julieta, em Verona, também o santo padroeiro de amantes e namorados era bem italiano.

O dia em que se celebra o bispo e mártir Valentim está ligado a antigas festas romanas que eram realizadas no dia 15 de Fevereiro, em honra do deus pagão Lupercus. Estas festas eram relacionadas à purificação dos campos e a ritos de fertilidade, mas ao longo dos séculos, julgadas  licenciosas demais, foram proibidas por Augusto e, em seguida, suprimidas pelo Papa Gelásio em 494.

Para os antigos romanos o mês de Fevereiro era o período de preparação para a chegada da primavera, considerada a estação da renascença: a igreja cristianizou o ritual pagão antecipando-o para o dia 14 de Fevereiro, atribuindo ao mártir Valentim a capacidade de proteger os namorados encaminhados para o casamento e a união alegrada por filhos.

Foi mesmo a partir disso que surgiram algumas lendas.

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Afresco na Basílica e Catacumba de São Valentim em Roma

Porque Valentim foi escolhido como santo padroeiro dos namorados?

A lenda conta que ele foi o primeiro religioso que celebrou a união entre um legionário pagão e uma jovem cristã. Já bispo de Terni, na região da Úmbria, ele uniu por casamento a cristã Serápia e centurião romano Sabino: a união era contrariada pelos pais da moça, mas, superada a resistência deles, descobriu-se que a jovem estava gravemente doente. O centurião chamou Valentim à cabeceira da jovem que estava para morrer e pediu-lhe para nunca mais ser separado da sua amada: o bispo batizou Sabino e celebrou o casamento, mas depois disso os dois amantes morreram juntos…

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Vitrais da Basílica de São Valentim em Terni

Outra lenda narra que um dia, o bispo, caminhando, e vendo dois jovens brigar, se aproximou deles com uma rosa e os convidou a segurá-la em suas mãos: foi só após este gesto que os jovens se afastaram finalmente reconciliados.

Outra versão desta história conta que o santo foi capaz de inspirar o amor em dois jovens, fazendo voar, em torno deles, vários casais de pombos que se trocavam doces gestos de carinho: é mesmo desse episódio que se acha pode derivar a expressão “pombinhos”.

Mas o que sabemos da vida do santo dos namorados?

Valentim nasceu em Interamna Nahars (a hodierna Terni, na Úmbria) em 176 d.C. A mais antiga notícia sobre ele é um documento oficial da igreja dos séculos V-VI d.C., onde aparece o aniversário da sua morte. Ainda no século VIII, um outro documento narra alguns detalhes do martírio: a tortura, a decapitação durante a noite, o enterro pelos discípulos Próculus, Éfebo e Apolônio. Outros textos do século VI d.C. contam que São Valentim, bispo da cidade de Terni desde 197 d.C., já famoso pela caridade e pela humildade, foi convidado para Roma por um certo Cráton, orador grego e latim, para que curasse seu próprio filho doente há vários anos. Curado o jovem, Valentim converteu ao cristianismo Cráton e a sua família, mas, preso pelos soldados romanos, foi decapitado. Era o dia 14 de Fevereiro de 273 d.C.

A história de São Valentim tem finais diferentes. De acordo com uma versão, quando o imperador Aureliano ordenou a perseguição dos cristãos, São Valentim foi preso e açoitado na Via Flamínia, longe da cidade para evitar tumultos e represálias dos fiéis.  A segunda versão diz que, em 273 d.C., o bispo Valentim, famoso por ter casado um pagão e uma cristã, foi convidado para Roma pelo imperador Claudius II que tentou convencê-lo a se converter novamente para o paganismo. Valentim, com dignidade, se recusou a renunciar à sua fé e, imprudentemente, tentou por sua vez converter Claudius II ao cristianismo.

No dia 14 de Fevereiro de 273 d.C. Valentim foi apedrejado e depois decapitado.

A história afirma também que, enquanto Valentim estava na prisão aguardando execução, se apaixonou pela filha cega do guardião Astério, e que, com a sua fé, milagrosamente devolveu a visão à moça. Se diz que antes da sua morte, Valentim tivesse enviado à jovem uma mensagem de despedida que terminava com a frase “de seu Valentim”. Uma frase que, ao longo do séculos, se tornou sinônimo de amor verdadeiro.

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Namorados em frente à Basílica de São Valentim em Terni, na Umbria (foto greenteadesign.com)

Sepultura de São Valentim

Parece que as relíquias do santo foram levadas para a cidade de Terni pelos três discípulos do filósofo convertidos pelo futuro santo, e que por esta razão foram martirizados. Seus restos mortais foram enterrados na LXIII milha da Via Flamínia, em Terni, num cemitério pagão, perto do local onde hoje fica a basílica a ele consagrada.

Em 1605 o bispo Giovanni Antonio Onorati, obtida a permissão pelo Papa Paulo V, fez iniciar a busca do corpo do santo. Há algum tempo tinham começado as buscas dos primeiros mártires da Igreja, para autenticar a existência delas e acrescentar a veneração. O corpo de São Valentim foi logo encontrado numa caixa de chumbo, contida numa urna de mármore, grosseira exteriormente, mas muito bem esculpida com relevos no interior. A cabeça estava separada do tronco, o que confirmou  o conto da morte do santo por decapitação. Assim, achada finalmente a relíquia mais importante, decidiu-se construir uma nova basílica mesmo por cima do corpo do bispo mártir. A Basílica de São Valentim só foi concluída no século XVII.

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A corrida de São Valentim em Terni (foto rivistamarathon.it)

Eventos em Terni

Terni fica na região de Umbria, a 110 km ao norte de Roma.

Maratona di San Valentino, 4a Edição, no dia 16 de Fevereiro
Cioccolentino,  Festival do Chocolate, de 12 a 16 de Fevereiro
Novena de São Valentim, na Basílica de São Valentim, Piazza San Francesco 12. Acontece durante 9 dias antes do dia 14 de Fevereiro, às 17:00.

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Festival de chocolate em Terni

Por Viviana Trovato, Guia de Turismo
vivianatrovato@libero.it

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